Pergunta versão 1: O que fazer para se divertir em uma manhã de domingo em algum lugar do Rio de Janeiro?
Opção A: dormir.
Opção B: tomar café com a família.
Opção C: ir a praia.
Opção D: pegar uma
lixxxta de telefones de
paulixxxtas e tentar ganhar algum trocado.
Pergunta versão 2: Como sobreviver, ganhar dinheiro, pagar contas, comprar comida, quando se nasce em um ambiente que não te proporciona muitas escolhas?
Opção A: dormir e ver se cai do céu.
Opção B: acordar todo dia de manhã e ir trabalhar.
Opção C: sair pela rua e furtar algum ser desprevenido.
Opção D: pegar uma
lisxxxta de telefones de
paulixxxtas e tentar ganhar algum trocado.
Quem me conhece sabe que eu dava tudo para ser uma assistente social: em rodas de discussão sobre dinheiro, democracia, consumo, sociedade civil, direitos humanos eu sou a mais "chata", que dá razão aos pobres e oprimidos, aos que não tiveram oportunidades na vida para ser "algo melhor". Mesmo ouvindo várias vezes frases do tipo: "
quem quer fazer o bem, consegue viver em ambientes inóspitos para o bem, e mesmo assim, sair vencedor, sem precisar entrar no crime e na marginalidade", eu continuo a alimentar um sentimento que - o nome não me agrada - traz um sentido de piedade/dó.
Muitos dias fico incomodada em passar horas em reunião discutindo estratégia de venda/imagem etc etc etc de um produto, enquanto tem questões sociais muito mais importante para ser discutida no mundo. Já em outros, o incomodo latente fica só na área do "malha mais, come menos, aprende mais, trabalha mais, ganha mais dinheiro, faça mais amigos, arrume um namorado, tire a sobrancelha, pense na roupa de amanhã"
E no
mix do dia-a-dia, algumas coisas acontecem e te fazem parar!
Hoje foi o dia que meus pais acordaram com uma ligação a cobrar de um homem, dizendo ter sequestrado sua filha por engano, que ela estava muito machucada, e para libera-lá eles queriam um deposito de 30 mil reias.
Ontem foi o dia que eu sai de casa as 22
hrs para encontrar com minhas amigas, ir para um
barzinho, dormir na casa de uma delas. Acordaria em mais um domingo qualquer, iria para casa depois do almoço, assistiria um filme, e iria dormir pensando na academia do dia seguinte, no dia de trabalho pela frente, em que roupa usar, e nas reuniões intermináveis sobre X produto.
Enquanto eu dormia sem meu celular por perto, meus pais receberam a tal ligação, tentaram me achar e não conseguiram. Quando finalmente eles conseguiram falar comigo, já dá para imaginar o quanto de nervosismo eles tinham passado.
Fato é que essa história é velha, já deve fazer mais de 10 anos de uma dia de Natal que passaram o mesmo trote para meu tio, que desesperado deu um murro na porta e quebrou a mão enquanto negociava pelo celular com o falso sequestrador do seu filho. Outros exemplos já apareceram logo cedo: mães de amigas que chegaram a depositar 20 mil reias em troca da liberdade de filhos que estavam dormindo tranquilamente em algum outro lugar; outro que sabendo que os filhos estavam em casa apenas xingaram e desligaram a ligação; ou os que tiveram sorte de conseguir falar rapidamente com os filhos.
No meu caso, um conjunto de "coincidências" fez meus pais passarem por esses momentos, que só de imaginar, fico me culpando por ter esquecido meu celular dentro da bolsa. Depois de tudo resolvido, me perguntei: "a gente colocou que ia estar no X bar no
Twitter?", "será que
alguém viu que eu não voltei para casa?", "será que eles sabem quem eu sou?"
Não. Muito provavelmente a gente foi apenas um número de telefone de uma lista, que não teve a sorte de conseguir mandar o cara do outro lado da linha para aquele lugar, com a certeza e garantia que não tinha ninguém sequestrado.
Bom, e agora meu discurso social? Eu continuo com pena. Se antes eu não gostava desse sentimento ligado a palavra, por trazer um ar de superioridade, nesse caso ela se aplica. Sei que essas pessoas estão bem pouco satisfeitas com a vida para chegar a fazer isso, elas possivelmente não recebem um terço do amor, compreensão, preocupação, que muitos de nós, que estamos do lado de cá das ligações telefônicas de trote recebemos.
Mesmo sem sequestro, o clima de enterro continua depois do choque. O ânimo de ficar feliz por nada de ruim ter acontecido, infelizmente não predomina. E para fechar o domingo, cumprindo algumas das tarefas de normalidade, assisti o filme
Escritores da liberdade (
The Freedom Writers Diary ), que mais uma vez me faz pensar, querer entender, e mudar a realidade de pessoas que as vezes fazem o mal, sem ter muita escolha de mudança.
Meus pais disseram que tinham quase certeza que não era eu, mas que na dúvida, a emoção falou mais alto. Depois de negociar por mais de uma hora, meu pai colocou R$ 600,00 em crédito de celular do tal sequestrador que prometeu me libertar. Passou o celular para a menina que chorava se fazendo passar pela sequestrada, quando minha mãe perguntou onde eu estava, ela respondeu: "
eu tava aqui no exxxxxcuro mãe", ai ela percebeu, que com esse sotaque carioca, não era eu.